Por Clarissa Kuschnir
A 15ª edição da Mostra Ecofalante que ocorreu em São Paulo do final de maio até o último dia 10 de junho é sem dúvida, um dos eventos mais importantes no audiovisual brasileiro no quesito de apresentar obras extremamente relevantes sobre questões ambientais, climáticas, de direitos humanos e geopolíticas. Este ano, pude estar mais perto assistindo aos filmes (nacionais e internacionais) e participando dos bate-papos interessantíssimos que ocorreram, durante as duas semanas da mostra. E uma das coisas que mais me surpreenderam, eram as sessões lotadas. Ou seja, o público está retornando aos festivais de cinema. E isso é muito positivo, pois sabemos que muitos dos filmes dos festivais (principalmente os internacionais), jamais chegarão ao circuito comercial.
A mostra abriu a sessão para convidados com o longa “O Urso Inconveniente” de Gabriela Osio Vanden e Jack Weisman e este, fiz minha crítica aqui no site : https://cinecappuccino.com.br/criticas/43736/
Para mim, um dos pontos mais altos foi a homenagem a produtora Zita Carvalhosa (falecida, em julho do ano passado, em São Paulo) e idealizadora do Curta Kinoforum que em 2026, chega em sua 37ª edição. Assim como vários festivais no país têm feito homenagem a Zita, o Ecofalante foi além, trazendo não só uma sessão de filmes que de alguma forma ela fez parte (ela produziu 59 produções, entre séries, curtas e longas-metragens) mas montando uma mesa, com profissionais que puderam falar sobre ela e suas experiências, ao lado da produtora. A mesa foi formada pelos cineasta Jefferson De, Ricardo Dias, Aurélio Michiles, José Roberto Torero, Christian Saghaard, a realizadora Lina Chamie, o curador Márcio Miranda e a diretora executiva Vânia Silvia (ambos os dois últimos, fazem parte da coordenadoria geral, do Curta Kinoforum) e a mediação, foi feita pela professora Esther Hamburguer.
“Para a Ecofalante é uma honra estar fazendo esta homenagem para a Zita. Boa parte dos grandes talentos hoje começaram com a Zita, isto nos anos 90 e 2000. Eu queria inicialmente agradecer a vocês, a Superfilmes (produtora a qual Zita era sócia), ao Festival Kinoforum, ao Patrick Leblanc (viúvo de Zita), que foi a primeira pessoa que falei, quando tive a ideia de fazer esta homenagem e, a família. Estou muito emocionado, inclusive porque eu mesmo dentro desta gama de novos cineastas que hoje estão muito presentes. Eu tive a oportunidade de fazer meu primeiro filme com a Zita. Então é realmente muito emocionante, e o festival de curtas teve uma importância fundamental de difusão para o Brasil inteiro, e a Zita também, por essa militância nessa área de difusão dos curtas, no audiovisual brasileiro. Eu arrisco a dizer que boa parte dos festivais de cinema do Brasil, foi inspirado por essa ação da dela. É uma honra estar aqui podendo prestar essa homenagem com todos os presentes”, disse Chico Guariba, diretor geral da mostra. Logo após o debate, Ligia Carvalhosa, filha de Zita, recebeu as homenagens muito emocionada.
“Reforçando o que a Vânia trouxe, estamos aqui com uma turma muito potente e acho que é importante de fato que todos saibam que tem muita gente construindo junto para fazer, com que o Kinoforum sobreviva. É isso, ela não foi professora oficialmente, mas foi professora de muita gente. Ela era uma apaixonada por educação. Então é isso, vamos juntos. Eu queria fazer este chamado para todo mundo que foi tocado por ela, para continuar nesta jornada”, encerrou as falas, Ligia Carvalhosa.
Das sessões seguidas pelos debates consegui assistir ao longa “Tietê: Águas Verdadeiras”, de Rodrigo Campos, que fez parte da Sessões Especiais Nacionais. O longa que percorre um dos rios mais importantes do Brasil, sendo apresentado desde sua nascente em Salesópolis (com suas águas claras e possíveis de nadar e beber), até a cidade de Mogi das Cruzes, mais próxima a capital, onde o rio já é poluído. Isto tudo narrado pela atriz Waleska Firmino, que interpreta o rio como se ele estivesse se apresentando ao público. E o longa ainda tem como anfitrião Victor Kinjo que tem como pesquisa de seu pós-doutorado os problemas sobre o Rio Tiete, apresentados em tela.
“Queria agradecer muito ao Ecofalante pela oportunidade de estrear o filme aqui. Fizemos as pré-estreias em Mogi e região, mas agora a gente começa a expandir este olhar de levar o filme para outros lugares. A ideia é mostrar que em tão pouco espaço do Rio ali, em uma trajetória tão curta, quantas questões que a gente trata. São desde as questões que são importantes de memória até os problemas que a gente precisa enfrentar. Eu agradeço também toda a equipe do filme, Este filme é realizado com incentivo de lei municipal e acho importante falar isso, pois muitas vezes as cidades não têm acesso a isso. O filme é pequeno, mas indiretamente têm 110 pessoas trabalhando nele e quero agradecer a todos, disse Rodrigo Campos a plateia cheia, na pós sessão seguida de debate. O diretor ainda dedicou ao filme três pessoas que ajudaram no processo e acabaram falecendo que foram: Rebeca Crespo, que participou da parte de roteiro das crônicas o Roluncio personagem importante da nossa cidade e o Diego Banzato, que foi responsável pela direção de arte e intervenções artísticas, finalizou Rodrigo.
“Tietê: Águas Verdadeiras”, foi um dos filmes que tiveram sessão debate e eu acho que nunca vi tanta gente reunida em frente a um debate, para falar sobre a importância da preservação do rio, que sofre há anos com a poluição, inclusive no interior. E a sensação é de que nós brasileiro não conhecemos nada das nossas matas e rios. Na maioria das vezes olhamos para os países vizinhos ou europeus e esquecemos que temos a obrigação de fazer a nossa lição de casa, e que a preservação começa dentro de casa, respeitando a natureza, que nós temos de sobra. Este é um filme obrigatório para todos, inclusive para as escolas.
Outro longa em que foi seguido de um debate muito produtivo intitulado “Vidas Exaustas: Solidão, Trabalho e a Reconstrução o Comum foi “Querido Amanhã”, de Kaspar Astrup Schröder, onde o cineasta aborda a crise de solidão de dois moradores de Tókio, no Japão. Em um país tecnologicamente tão avançado, seus moradores se sentem sozinhos e meio a minúsculos apartamentos. Inclusive há até uma instituição chamada A Place For You, onde milhares de voluntários oferecem suporte mental a milhares de pessoas todos os dias. E mesmo assim, a instituição não dá conta de tantas chamadas. E como se sabe o Japão é um dos países com maior índice de suicídio, principalmente entre os mais jovens.
“Estes dois personagens sintetizam um momento em uma sociedade em uma forma de vida, as coisas para a gente. Eu fui vendo o filme e pensei que eram atores, mas o filme captou de fato momentos muito íntimos e verdadeiros daquelas pessoas que são sínteses da sociedade, que estão ali materializados. E o diretor agradece no final, disse em suas falas no debate Ludmila Costhek Abilio, professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Sociologia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia e Trabalho (Unicamp).
O filme que mais mexeu comigo foi o Impactante “Os Gêmeos de Gaza”, em que o cineasta palestino Mohammed Sawwaf apresenta Rania uma moradora do norte de Gaza que dá luz a trigêmeos (um deles infelizmente, acaba morrendo) que é separada de seus filhos. ainda no hospital. A partir daí ela começa em uma jornada de poder rever seus filhos que acabam ficando com sua irmã, por questão de segurança. E durante 1h30 dá para sentir a angústia dela e de sua família para que logo consiga reencontrar seus filhos. Sem contra que vemos uma Gaza totalmente destruída de Guerra que levará anos para ser reconstruída, Achei um filme heroico.
Um média-metragem que achei bem curioso no meio desta programação foi o “Longe dos Holofotes” do cineasta franco-canadense Jérémie Battaglia, que mostra o dia a dia das pessoas que produzem o tênis Veja no Brasil. O que poderia ser um filme institucional se torna um documentário muito verdadeiro sobre pessoas que graças a iniciativa da empresa conseguiriam um emprego, e falam de forma muito livre. sobre a complexidade de um ecossistema para se fabricar, um dos tênis mais desejados nos últimos tempos.
Alguns outros títulos tive a oportunidade de assistir em outros festivais como o documentário indígena “Até Onde a Vista Alcança”, de Alice Villela e Hidalgo Romero e “Lendo o Mundo”, de Catherine Murphy e Iris de Oliveiras. Ambos fizeram parte da programação da 53º edição do Festival de Cinema de Gramado e “Lendo o Mundo” que tem como tema Paulo Freire, foi o documentário vencedor.
Dos curtas que conhecia e que eu gosto muito é o gaúcho “Grão”, de Gianlucca Cozza e Leonardo da Rosa que traz um personagem invisibilizado, que trabalha recolhendo soja; o paraibano A Nave Que Nunca Pousa, de Ellen Morais, onde a cineasta aborda as consequências negativas da energia Eólica no sertão da Paraíba e a sensacional animação A Tragédia do Lobo Guará, de Kimberly Palermo.
Os vencedores este ano pelo júri oficial formado pela atriz e diretora Djin Sganzerla, pelo curador e cineasta Lorran Dias e por Tide Borges, professora e sound designer foram: Arquivo Vivo”, do diretor Vincent Carelli, e “Mounir”, de Julian Borges. Ambos conquistaram o prêmio de Melhor Longa-Metragem da seção Territórios e Memória, a principal competição do evento.
“A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, recebeu uma menção honrosa do júri oficial e também, o prêmio do público. O longa da diretora vem percorrendo diversos festivais e tem conquistado o público com uma história em que a realizadora traz como protagonistas de suas próprias vidas, as meninas da pequena Guaribas, cidade com cerca de 4,5 mil habitantes, no sertão do Piauí. Em 2003, a cidade viveu uma transformação social, superando o índice de pobreza, sendo escolhida no projeto-piloto para a implantação do Programa Fome Zero, na primeira gestão do presidente Lula.
Os curtas metragens vencedores da competição Territórios e Memória escolhidos pelo mesmo júri foram: “A Pele do Ouro”, produção de Roraima dirigida por Marcela Ulhoa e Yare Perdomo. Já o alagoano “O Mapa em Que Estão Meus Pés”, de Luciano Pedro Jr., recebeu Menção Honrosa. O público escolheu “Replikka”, uma coprodução entre Brasil, Estados Unidos e Reino Unido dirigida por Piratá Waurá e Heloisa Passos.
“Pé de Caju”, de Pablo Monteiro e Cadu Marques foi escolhido como melhor filme da competição Curta Ecofalante, categoria exclusiva para obras de alunos de cursos audiovisuais. E “Av. São João, 588”, de Bruna Resende e Matheus Barbosa levaram uma menção honrosa. O júri desta categoria foi formado pelo professor e cineasta Isaac Pipano, pela roteirista e diretora Larissa Barbosa e Luciana Resende, analista ambiental e integrante da equipe do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O voto do público foi para “Trago Seu Amor de Volta”, de Raíssa Anjos.
Lembrando que “Um Pé de Caju” e “Av. São João, 588″, estão na plataforma da SPCine Play e “Trago Seu Amor de Volta” no Itaú Cultural Play, além de outros curtas da programação do festival, que vale assistir, até o próximo dia 28 de junho. É só acessar se cadastrar e assistir, nos seguintes endereços: https://www.spcineplay.com.br/channels/196 e https://www.itauculturalplay.com.br/content/collections/15-mostra-ecofalante-de-cinema
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