“Um Filme Sem Medo” e “Sagrado” foram os vencedores desta edição de 2026, que encerrou no último domingo, dia 19 de abril
Por Clarissa Kuschnir
Maratonar o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que ocorreu entre os dias 09 e 19 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro virou um prazer para mim, nestes últimos anos. Confesso que tenho gostado muito mais de ver documentários, do que ficções. Talvez por eu ser jornalista e curiosa, com o mundo real. Através dos documentários, eu tenho aprendido sobre tantos assuntos, e viajado para tantos lugares, sem sair do lugar. E semana passada, foi assim. Dos 75 títulos, consegui conferir 31 documentários, entre curtas, médias e longas-metragens. Acabei não conseguindo acompanhar a 23ª Conferência Internacional de Documentários, que aconteceu na Cinemateca Brasileira, mas graças a tecnologia, o festival deixa disponível, em sua página do Youtube. Este ano, os assuntos abordados foram: Cavalcanti: Obra Cigana, ministrada por Carlos Augusto Calil; Mulheres sem Câmera/Mulheres com a Câmera, com Clara Bastos Marcondes e Kirill Goriachok; Encontro com a realizadora Vivian Ostrovsky (uma das homenageadas do festival), sendo mediada pela cineasta Fernanda Pessoa e entre estas palestras, o público teve a oportunidade de acompanhar a Masterclass com o cineasta Eryk Rocha, mediada pela professora e pesquisadora Andréa C. Scansani.
Com algumas sessões bem concorridas, além de exibições na Cinemateca e no IMS – Paulista, o Cinesesc recebeu o festival durante uma semana e nas que estive presente como “A Fabulosa Máquina do Tempo” (um dos meus títulos favoritos dos festival), de Eliza Capai e “Bowie: O Ato Final” formaram filas enormes, no quarteirão do cinema. E isso é ótimo, pois prova que o brasileiro vem se interessando cada vez mais pelo cinema, fora do circuito comercial. Até na Cinemateca, em sessões no meio da tarde, havia um público significativo.
“Neste últimos dez dias as telas falaram e vocês confirmaram. O documentário é uma das artes mais essenciais e vigorosas de nossos sombrios tempos. Em especial o documentário brasileiro que se reafirma na vanguarda da nossa produção audiovisual. É uma realidade esta que continua a expor ano após ano a timidez, quando não a tacanhez das políticas públicas, do que tange o documentário. O desenvolvimento, produção, distribuição e publicidade e exibição dos nossos filmes documentais merecem um tratamento muito mais atento e equilibrado a sua importância, reconhecida aqui e no exterior. Cumpre a nós todos cobrar isso, enfatizou Amir Labaki diretor e idealizador do festival ao público presente, na cerimônia de premiação, ocorrida no último dia 18. Amir ainda lembrou que dois longas documentários com coprodução brasileira, ficaram entre os 15 semifinalistas ao Oscar 2026, afirmando que nossos documentários são presença destacada em festivais internacionais.
“Não à toa, se me permitem a modéstia, o É Tudo Verdade é o festival brasileiro, sul-americano e latino-americano, que classifica o maior número de títulos junto a Academia de Artes e Ciências Cinematográfica de Hollywood, para a disputa de seus dois prêmios para documentários: o de melhor curta e longa-metragem, finalizou Amir.
Lembrando que desde 2018, o festival é reconhecido como um “Qualifying Festival” pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
E os vencedores deste ano pelo júri oficial foram: o sensacional e criativo curta nacional “Os Arcos Dourados de Olinda”, de Douglas Henrique; o necessário e observador “Sagrado”, de Alie Riff; o curta cubano e italiano internacional “Sonhos de Apagão”, de Gabriele Licchelli e Francesco Lorusso e o longa “Um Filme de Medo” (Espanha/ Portugal), do brasileiro sediado na Espanha, Sergio Oksman.
Tanto “Os Arcos Dourados de Olinda” quanto “Sagrado” ainda foram agraciados nas premiações paralelas. O filme de Douglas Henrique merecidamente com os prêmios: Canal Brasil de Curtas; Prêmio Mistika; Prêmio edt. (Associação de Profissionais de Edição do Audiovisual) e Prêmio APACI (Associação Paulista de Cineastas). Já “Sagrado” também ganhou o Prêmio APACI (Associação de Profissionais de Edição do Audiovisual).
Apocalipse Segundo Baby“, de Rafael Saar se consagrou com: o Prêmio Maria Rita Galvão PAVIC – Pesquisadores de Audiovisual, Iconografia e Conteúdo, ABPA – Associação Brasileira de Preservação Audiovisual e REPIA – Rede de Pesquisa de Imagens de Arquivo; edt de montagem para Claudio Tammela e Rafael Saar e assistência de montagem de Mayara Proença e Vinícius Medeiros, além de menção honrosa, pelo júri oficial. E realmente, o filme de Rafael que levou 10 anos para ser realizado é de um material de arquivo muito rico, pegando imagens desde a juventude de Baby do Brasil, até os dias mais atuais.
“Quando ele chegou, eu que tenho uma mania de sentir a pessoa e seu eu sentir que ela vai ser fiel, honesta e pura a ela mesma, eu já aposto. E não quero nem saber qual é a política dela. E eu falei, que iria apostar nele. Eu tinha muita coisa para fazer, mas eu senti que ele seria o parceiro que me enxergaria, pois não é muito fácil me enxergar. Eu sou meio, fora da curva as vezes sabe. Meus filhos falam isso, e no outro dia eu vi o filme e meu filho que ficava beijando a minha mão, porque ele não me conhecia direito, e eu não queria contar para não influenciar. Então eu quero te agradecer por eu poder confiar em você, que seria verdadeiro. E quando você falava para mim, não faça isso Baby, você me respeitou, pois eu vou para o caminho que eu quiser, porque é o caminho da minha verdade. E você respeitou e hoje é lindo o caminho que você fez. Eu amo seus cortes, a maneira como emendou as músicas, as cenas. Ou seja, é para mim é uma honra estar aqui, no meio de vocês. Essa é uma passagem da minha vida onde eu louvo a Deus, por ele estar no controle de tudo e você hoje, receber todos esse prêmios, muito merecidos”, disse emocionada a Rafael, Baby do Brasil, presente na cerimônia.
Os outros títulos que também levaram menções honrosas internacionais pelo júri oficial formado pela produtora Heloísa Passos, o documentarista e produtor uruguaio Ricardo Casas e a cineasta Vivian Ostrovsky foram: o longa “Jihan em Meu Pai e Gaddafi “, de Jihan e o curta “Se Não Gostou Não Olhe“, de Margaux Fournier.
Já as menções(além de “Apocalipse Segundo Baby”) do júri nacional formado pelo cineasta Eryk Rocha, pela documentarista Carol Benjamim e pela pesquisadora e cineasta Helena Tassara foram para os curtas: “Filme- Copacabana”, de Sofia Leão, e “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, dirigido por Clea Torres e Gilson Costta.
No geral gostei dos prêmios, porém de longa internacional eu torcia muito para o sensível, tocante e emocionante “Entre Irmãos”, do cineasta Holandês Tom Fassaert (que esteve presente no Brasil), e que retornou ao festival, depois de 10 anos. Outro longa que mexeu comigo foi “Desfecho” (Polônia, França), de Michal Marczak, onde o protagonista fica procurando seu filho adolescente desaparecido, sem querer acreditar, em um possível suicídio. E para fechar os meus prediletos fico com “Os Olhos de Gana”, do canadense Ben Proudfoot. Confesso que é difícil um filme me emocionar a ponto de chorar, mas este é um filme para quem ama o cinema. Ben nos apresenta o documentarista Chris Hesse, hoje com 93 anos e quase cego por causa do glaucoma, que durante anos foi o cinegrafista pessoal do líder africano Kwame Nkrumah, que foi presidente de Gana entre 1960 e 1966. Ao lado da cineasta Anita Afonu, eles conversam sobre a carreira dele, repleta de histórias e viagens e sobre a recuperação de seus filmes (muitos se perderam) e uma pequena parte, está em Londres. Graças a essa recuperação, eles conseguem reformar um cinema em Gana e fazer uma sessão com trechos de vários de seus filmes e que termina, com um final emocionante. Confesso que não conhecia Chris Hesse, e foi uma aula de cinema, de mais uma grande figura, que merece este resgate. Além do Ben Proudfoot, que também assina como produtor, o casal Obama se junta a essa bela descoberta mundial, que reescreve a história de Gana.
O festival encerrou com chave de ouro este ano trazendo o ótimo “Memória de Os Esquecidos”, de Javier Espada que fala sobre “Os Esquecidos” (1950) obra prima de Luis Buñuel, rodado no México. Na época de seu lançamento, o filme que sofreu críticas severas, pelos mexicanos, por apresentar a triste realidade e a delinquência, dos meninos de rua. No documentário são apresentadas cenas do filme e entrevistas, inclusive com Alejandro González Iñárritu. E o final é surpreendente depois de tudo o que é narrado e apresentado no filme( sem spoiler)
Lembrando que para quem perdeu os curtas, o É Tudo Verdade continua na plataforma da IC Play com dez títulos. Oito fizeram parte da Mostra Competitiva Nacional, um é da Vivian Ostrovsky(que teve presente em 4 programas no festival) e outro fez parte da seleção do É Tudinho Verdade, que estreou este ano, para o público infantil. Para assistir e saber sobre os títulos basta acessar: https://www.itauculturalplay.com.br/
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