Por Clarissa Kuschnir
Vivemos no tempo da tecnologia, onde tudo é muito acelerado e onde muitos filmes passam pelo cinema e sobrevivem poucas semanas em cartaz (principalmente se for longa brasileiro) e depois, seguem para o streaming, apenas para ficarmos garimpando bons títulos. Porém, em contrapartida, algumas distribuidoras estão investindo no processo de recuperação de algumas obras clássicas do nosso cinema, a exemplo da Vitrine, que há algum tempo vem relançando títulos no chamado projeto Sessão Vitrine Petrobras. Os filmes entram em cartaz a um preço mais acessível, e o público pode conhecer ou rever obras importantes, da nossa cinematografia. E o mais novo lançamento é “Xica da Silva”, de Cacá Diegues (“Bye Bye Brasil”). Depois de muitos anos consegui revisitar este clássico de 1976 na telona (só tinha visto em VHS e na TV, na época da minha adolescência), mas o longa, nunca saiu da minha cabeça, e a música composta e interpretada por Jorge Bem Jor, menos ainda. E agora, depois de rever em cópia restaurada, eu passei a admirar ainda mais esta obra que foi uma marco na carreira de Zezé Motta e de Cacá Diegues( falecido o ano passado), levando na época mais de 3 milhões de espectadores aos cinemas (números expressivos, para quem costuma dizer que o cinema brasileiro sempre foi ruim), e que foi o grande vencedor do Festival de Brasília nas categorias de melhor filme, direção e atriz para Zezé Motta, merecidamente por viver uma personagem importante da nossa histórica, do século XVIII.
E foi através das memórias de Joaquim Felício dos Santos escritas em seu livro “Memórias do Distrito de Diamantina da Comarca do Serro Frio” que Cacá Diegues adaptou o roteiro do longa que narra a história da escrava Francisca da Silva de Oliveira, que conseguiu sua alforria pelas mãos do contratador de diamantes português João Fernandes de Oliveira(vivido pelo charmoso Walmor Chagas), que se apaixonou a primeira vista, pela figura ousada de Xica da Silva e logo a transforma, na mulher mais poderosa da cidade de Arraial do Tijuco, atual Diamantina. E a partir da hora em que a protagonista aparece, ela toma conta da história. Graças a atuação brilhante de Zezé Motta, que deu vida a personagem que de ingênua, não tinha nada. Muito pelo contrário, ela dominava os homens, criando inveja nas mulheres. Com o passar do tempo e com a riqueza de seu companheiro português, seu figurino passa a vir da Europa, vestindo roupas pomposas e sempre cercada de joias. Xica da Silvia era tudo o que muitas mulheres queriam ser. E ela desafiou uma época e uma sociedade e chegou a desafiar inclusive, a coroa portuguesa. E Cacá Diegues conseguiu fazer de sua Chica da Silva uma mulher liberal, segura e muito sensual. Sim, o diretor brinca com a sensualidade da personagem como uma espécie de enfrentamento, e coloca uma mulher negra como o centro. Uma mulher, que teve grande importância, na nossa história. E sua sexualidade serviu como um grande trunfo na época. Com a cópia restaurada em 4k, a impecável direção de arte fica ainda mais evidente, com cenários rigorosamente retratados de um século XVIII, nas cidades históricas onde foi filmado que são: Paraty, Diamantina e também, em Cabo Frio.
As cores vivas dos figurinos são outro espetáculo a parte e Xica Da Silva, não poupava em nada. Ela ousava tanto para mostrar o corpo e seduzir, quanto em suas ricas vestimentas. Era uma figura libertadora, inteligente e política, para uma época em que o Brasil, ainda baixava a cabeça para seu colonizador. Ou seja, era uma heroína, em um país que foi o último a abolir, o sistema de escravidão. “Xica da Silva” é um espetáculo cênico, tanto pelas imagens, quanto pelas atuações e pela música. E vale lembrar que o filme foi lançado em plena Ditadura Militar, o que confrontava bem com que acontecia no país. E Cacá Diegues conseguiu transmitir isto em sua adaptação e Zezé Motta brilha, como protagonista de uma mulher negra no cinema, em meados dos nos 70. Hoje aos 82 anos, a atriz que também é cantora é reconhecida como uma das multiartistas, mais importantes do Brasil. Além do prêmio no festival de Brasília, ela ainda recebeu o Prêmio Air France, o Coruja de Ouro e o Prêmio Governador do Estado de SP. E o longa ainda conta com ótimas participações de Stepan Nercessian, Altair Lima, Elke Maravilha e José Wilker. E agora na véspera de completar 50 anos, o filme merece este retorno em grande estilo, para que novas gerações também possam conhecer, um pouco mais da nossa história e do nosso cinema.
Xica da Silva
(Xica da Silva, Brasil, 1976, 117 minutos, Ficção/Comédia)
Direção: Carlos Diegues
Com: Zezé Motta, Walmor Chagas, Altair Lima, Elke Maravilha e José Wilker
Sinopse
Na segunda metade do século XVIII, a negra escravizada Xica da Silva torna-se o centro das atenções no Distrito Diamantino, onde estão as minas mais ricas do país. João Fernandes, representante da Coroa Portuguesa, apaixona-se por Xica e a transforma na Rainha do Diamante, satisfazendo todos os seus desejos extravagantes. Alertado pelos inimigos do casal, o rei de Portugal manda um emissário a fim de impedir que cresça o poder de Xica na colônia.
Onde Assistir: Nos Cinemas
Distribuição: Vitrine Filmes
Circuito Exibidor: Aracaju, Belém, Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa, Maceió, Manaus, Niterói, Palmas, Porto Alegre, Recife, Rio Branco, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Vitória.
Confira o trailer abaixo:
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