Por Clarissa Kuschnir
Em seu quarto filme o cineasta gaúcho Davi Pretto (“Continente”) usa e abusa do recurso em IA. Mas este usa e abusa não é aleatório e ao assistir “Futuro Futuro” vamos entendo o processo durante a curta minutagem do filme, que justamente por causa de seu tempo lento, parece ser estender demais. Em um mundo distópico, o diretor apresenta o personagem K, protagonizado por Zé Maria Pescador (“O Clube dos Canibais”, “Maria e o Cangaço”), que perdeu a memória e é acolhido por Silvio (João Carlos Castanha), um clickworker (pessoas que recebem para testarem pequenas tarefas online). Ele é mais velho, e vive em uma comunidade no lado pobre da cidade, onde a pessoas que também perderam a memória, são submetidas as sessões terapêuticas através da inteligência artificial. O objeto usado é um oráculo que quando iluminado em diversas cores (uma espécie de Alexia da cromoterapia, com voz da atriz Olivia Torres), as pessoas vão sendo levadas para outros mundos, e talvez relembrem seus passados, como K, que não sabe de onde veio, e porque foi parar ali. E as viagens de K são sempre em um mundo onde tudo é bonito. A palheta vermelha prevalece e enaltece os belos e imponentes prédios e paisagens em IA por onde ele viaja, onde um mundo burguês prevalece (ou seja, o outro lado da cidade).
Tudo parece perfeito, no mundo artificial. E as sessões passam a ser um vício em um mundo onde a pobreza prevalece, e a chuva não dá trégua. Inclusive a chuva é um fenômeno, em que o diretor faz questão de trazer à tona como um problema social (preste atenção nos créditos de abertura do filme). Quando K volta para a realidade a acaba conseguido conhecer o lado rico da cidade desconhecida, ele vê o quanto este mundo não é perfeito. E ali, todos estão no mesmo barco, apesar dos recursos financeiros dos abastados personagens vividos por Clara Choveaux como Antonieta, Carlota Joaquina, como Joana “a mãe” e Higor Campagnaro, como Isaac. A ameaça de fim do mundo é para todos. Ninguém está ileso.
O longa é uma reflexão de como a Inteligência Artificial tem feito parte da vida das pessoas (muitas não conseguem viver mais sem o recurso) e o quanto isto, pode afetar as relações. A tecnologia já afeta as relações, há algum tempo. Vivemos cada vez mais fechados em nossos mundos virtuais, enquanto a vida passa. Grande parte da população se utiliza de recursos em IA, porém, o mais assustador, são os jovens que abusam destes recursos para tudo. E o cinema também se prevalece do uso de IA. Muitas obras têm usado o IA, inclusive curtas documentais. Porém em “Futuro Futuro” este incomodo faz parte da crítica da obra. E precisamos falar sobre isso. Será que no futuro, as máquinas dominarão o mundo? As relações entre os personagens são frias, o que contrasta com o vermelho quente. E K se sente apático , em relação a vida.
Filmado com poucos recursos em Porto Alegre, em apenas 16 dias, durante a maior enchente que afetou o estado do Rio Grande do Sul, Pretto consegue fazer um ficção-científica bem elaborada, com boas atuações e que graças aos recursos tecnológicos neste caso, ele leva para as telas exatamente o que se propôs. Inspirado pela literatura ciberpunk de William Gibson e Philip K. Dick, pelo trabalho, Davi Pretto saiu premiado no último festival de Brasília com os Candangos de melhor filme, melhor roteiro e montagem, além de menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador. O filme ainda teve passagem pelo Festival Internacional de Karlovy Vary, na República Tcheca, Festival do Rio, Mostra de São Paulo e Fantasporto, o maior evento de cinema fantástico de Portugal.
Futuro Futuro
(Futuro Futuro, Brasil, 2025, 86 minutos, ficção científica, drama, fantasia)
Direção: Davi Pretto
Com: Zé Maria Pescador, João Carlos Castanha, Carlota Joaquina, Clara Choveaux, Higor Campagnaro, Olivia Torres, Silvia Duarte, Ida Celina, Alex Pantera, Carlos Azevedo, Daniel Machado, Elaine Segura, Fabielly Klimberg, Gabriela Greco, Iluska Moura, Li Pereira, Luciano Abreu, Robson Duarte e Sandro Marques
Sinopse
Em um futuro próximo, onde os avanços em inteligência artificial coexistem com o surgimento de uma nova síndrome neurológica, um homem sem memória de 40 anos chamado K é acolhido por um clickworker solitário de 60 anos na parte empobrecida de uma chuvosa cidade brasileira. Após usar um viciante dispositivo IA em um curso para pessoas com a estranha síndrome, K embarca em uma jornada trágica e absurda para tentar encontrar o seu lugar no mundo.
Confira o trailer abaixo:
Onde assistir: nos cinemas
Distribuição: Atelier W e Cajuína Filmes
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