Por Clarissa Kuschnir
Em uma das falas do Senador Randolfe Rodrigues logo no começo do documentário “Anatomia do Caos”, de Dandara Ferreira (“Meu Nome é Gal”) ele de máscara (em meio a pandemia), deixa bem claro para as câmeras da diretora, que a CPI da Covid (que ocorreu em 2021) não tinha nenhum lado político. E para quem acompanhou de perto as sessões (eu fui uma delas), da CPI liderada pelo próprio Randolfe, além dos senadores: Renan Calheiros, Omar Aziz, Humberto Costa, Simone Tebet e Eliziane Gama (as duas da bancada feminista) que aparecem no filme, sabe que o objetivo ali era de investigar as irresponsabilidades e omissões, que ocorreram do então presidente da época Jair Messias Bolsonaro. E foi justamente este recorte da CPI que a cineasta direciona o longa, que nos faz retornar para uma época difícil para a humanidade. E no Brasil, o que poderia ter sido trabalhado de maneira correta, resultou na morte de mais de 700 mil pessoas, dados estes, registrados pelo Ministério da Saúde. Números, que poderiam ter sido evitados se não houvessem tantas omissões, demora na compra e tentativa de corrupção nas negociações das vacinas, e as fake news, que circulavam livremente e continuam circulando, pelos negacionistas.
Durante o documentário acompanhamos uma série de depoimentos da CPI, misturados a vídeos de Bolsonaro e suas falas absurda como: “E daí, eu não sou coveiro”; “é só uma gripezinha”. Sem contar suas imitações de falta de ar, durante uma de suas lives e a fala de seu histórico de atleta. Ou seja, vai contra tudo o que um ser humano no mínimo provido de empatia, cristão (o verdadeiro, não o da boca para fora) e inteligente, não faria. E rever estes momentos não é fácil. Eles causam um mal-estar e uma certa revolta, justamente pelo que vivemos no Brasil. O negacionismo à ciência é outro ponto importante no documentário, já que uma parte da população acreditava em tratamentos precoces com remédios para vermes como a Ivermectina, a Cloroquina e Hidroxicloroquina, usadas para a malária e lúpus. E isso era receitado pelos próprios médicos (como mostra nos depoimentos dos profissionais da Prevent Senior), que eram obrigados a receitar os remédios para os pacientes, como forma de tratamento. Ouvir as falas absurdas da médica Nise Yamaguchi (conselheira de Bolsonaro da época), que defendia esses medicamento, além do militar e ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello que dizia não se arrepender pelas suas decisões é como um pesadelo que realmente aconteceu. Sem contar, a falta de respeito do ex-presidente e seu filho o senador e candidato à presidência este ano pelo PL, Flávio Bolsonaro, que sempre fizeram questão de maltratarem os jornalistas.
Ou seja, tudo ali e muito mais, é o Brasil real durante a Pandemia de Covid 19. E, as câmeras fazem questão de acompanhar e registrar o que aconteceu. E ouvir os senadores e acompanhá-los, inclusive dentro do carro foi uma forma de mostrar o quanto a CPI foi fundamental, durante a pandemia. Uma das passagens mais impactantes é quando Márcio Antônio Silva faz um relato triste sobre a perda de seu jovem filho, uma das vítimas da Covid. E no final do filme, descobrimos que este mesmo pai, acabou morrendo um ano depois da CPI, por problemas cardíacos (o coração não aguentou, de tanto sofrimento). E muitos foram os casos, onde parentes não puderam rever seus entes queridos, e nem os enterrá-los direito, pela complexidade e gravidade da doença. Durante uma hora e meia de filme graças a bem costurada montagem (entre depoimentos e imagens de arquivos jornalísticos e belas tomadas de Brasília) de Lara Beck e Renato Sircilli, podemos retomar ao que foi a crise sanitária no país e do como se dá a relação política e sinistra, de nossos políticos. As imagens e os depoimentos falam por si. Ao final a sensação é de vazio (assim como a sala vazia da CPI mostrada, logo nas primeiras e últimas cenas). E em relação ao desfecho, sabemos que alguns meses depois a CPI acabou sendo arquivada por motivos políticos, porém em 2025, ela foi retomada por decisão do Supremo Tribunal Federal.
Anatomia do Caos
(Anatomia do Caos, Brasil, 2026, 90 minutos. Documentário)
Direção: Dandara Ferreira
Sinopse
Com acesso inédito ao Senado, a diretora Dandara Ferreira acompanha de dentro a trajetória completa da CPI da Covid-19 e transforma esse material exclusivo em um registro cinematográfico de um dos momentos mais marcantes da Pandemia no Brasil.
Onde Assistir: nos cinemas
Distribuição: Descoloniza
Confira o trailer abaixo:
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