Por Clarissa Kuschnir
O Amor como o caminho do meio
Visto na segunda edição do Festival de Cinema Europeu Imovision
Eu outro dia fiz uma postagem nas minhas redes sociais dizendo sobre um documentário que me emocionou muito no É Tudo Verdade que foi, “Os Olhos de Gana”. Agora eu retorno aqui com a minha crítica sobre o longa “8 Décadas de Amor”, do veterano cineasta espanhol Julio Medem (Lucia e o Sexo”), uma ficção que atravessa dos anos 30 até 2021, para contar a história de Adela(Ana Rujas) e Octavio (Javier Rey). E eu digo que não só eu, mas colegas jornalistas e a plateia presente na sessão do filme, exibido na segunda edição do Festival de Cinema Europeu Imovision, ficou emocionada. E essas emoções puderam ser transmitidas ao diretor, presente na sessão. O filme de Medem( que veio ao Brasil pela primeira vez), além de percorrer a Guerra Civil, Espanhola, a 2° Guerra Mundial, os anos da ditadura Franquista(1939 a 1975) , até chegar ao regime democrático , acompanha a vida dos protagonistas que por ironia do destino nasceram no mesmo dia, em uma pequena vila, no interior da Espanha, onde suas mães foram atendidas pelo mesmo médico, mas que foram se encontrar e se apaixonar já adultos, sem saberem exatamente, o quanto seus passados são interligados politicamente. E essa ligação vinda de pais com pensamentos ideologicamente distintos, mas que ultrapassa a polarização, tão presente em diversos países, a exemplo do próprio Brasil atualmente. Montado em capítulos (que são as décadas) e filmado em planos sequências, essa foi a escolha do diretor para que o público se aproxime e viva mais de seus personagens. Tudo é tão bem encaixado no longa , desde a fotografia, passando pela direção de arte, direção de atores e suas caracterizações, conforme vão passando os anos.
O grande mérito de Julio Medem é conseguir fazer um filme em que a política(que a principio segundo ele, não era este o objetivo) está presente o tempo todo, sem tomar algum partido. O foco está no relacionamento dos protagonistas, que mesmo descobrindo suas conexões passadas, conseguem se perdoar e viver um grande amor, em suas fases maduras, com o que resta de tempo. E é muito bom poder ver que é possível sim contar a história de um país que passou por tantos anos de ditadura, de uma maneira passada pelo diretor, com muita naturalidade. E a personagem de Adela se mostra sempre como uma mulher moderna, a frente de seu tempo, que não nasceu só para casar e ter filhos. Ela quer muito mais do que ser uma esposa troféu , como se diz por aí. A liberdade move essa mulher forte que passa por tantas perdas, enfrenta um divórcio de seu primeiro marido, em uma época em que a separação não era vista com bons olhos, e ainda é capaz de seguir seus objetivos. A química entre os protagonistas funciona na tela, e o perdão também entra como um fator determinante para uma história de amor, que parecia impossível. Mas, o objetivo do longa é mostrar justamente ao contrário. O amor é maior que tudo. O caminho do meio é a solução para os extremos. Antes da sessão , Julio Medem disse ao público para deixar a razão de lado e sentir o filme, de coração aberto. E parece que o recado dele deu resultado. Eu pouco leio sobre um filme quando eu vou assistir. Não gosto de criar expectativas pois o cinema é muito subjetivo. Cada pessoa percebe uma história, do jeito que ela conhece o mundo. E em “8 Décadas de Amor” parece que este caminho do meio é crucial, para que o filme seja bem recebido , sem forçar nada. O número 8 também pode ser visto como o símbolo do infinito, do equilíbrio cósmico e é esse o recado que o diretor quer deixar. Em tempos em que o extremismo , principalmente os de partidos de direita ameaçam a democracia, inclusive através dos mais jovens é para se repensar. E uma das funções sociais do cinema é essa, é fazer pensar, refletir e transformar. E que bom que eu tive a oportunidade de agradecer pessoalmente a Julio Medem por este belo filme, que se junta a outras obras importantes em sua filmografia como: “Os Amantes do Círculo Polar” e “Lucia e o Sexo”.
8 Décadas de Amor
(8 , Espanha, 2026, 132 minutos, Drama)
Direção; Julio Medem
Com: Ana Rujas, Javier Rey,
Sinopse
Octavio e Adela nasceram no mesmo dia, 14 de abril de 1931. Ao longo de oito décadas, seus caminhos se cruzam entre encontros arrebatadores e dolorosos desencontros, narrados em oito episódios. Essa é a história de um amor intenso entre uma mulher corajosa e determinada e um homem dividido por suas próprias contradições. Juntos, enfrentam não apenas as marcas de uma paixão impossível, mas também o fato de virem de famílias em lados opostos de um país que caminha lentamente para uma Guerra Civil. Tudo isso em meio às transformações históricas da Espanha e da Europa.
Confira ao trailer abaixo:
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