Por Clarissa Kuschnir
Quando a fé e a igualdade assustam o poder, nasce o massacre
Rosemberg Cariry (“Corisco e Dadá”) é um dos cineastas que sabe como ninguém retratar o Nordeste brasileiro, assim como o seu Ceará, mais precisamente o sertão do Cariri, sua terra natal. Em seu primeiro longa, “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, de 1986 ele pega uma passagem importante da nossa história (que muitos desconhecem, inclusive eu mesma desconhecia) e retrata com precisão e muito rigor estético na tela, a história do movimento messiânico que surgiu entre os anos de 1926 e1937, em Crato, com a ajuda do Padre Cícero, liderado pelo paraibano José Lourenço Gomes da Silva, ou mais conhecido, por beato José Lourenço.
Durante dez anos, muitos camponeses, quilombolas, beatos, assassinos e miseráveis sem expectativas de futuro puderam viver dignamente e sem fome, em uma comunidade, onde tudo era dividido por igual e com princípios religiosos. A fé, era um porto seguro para quem vivia por lá. Justamente por causa dessa condição igualitária de vida baseada em uma economia socialista, o Caldeirão começou a ser visto como uma ameaça aos mais poderosos, que armaram um forma de promover um massacre em massa, ocorrido em 1936, pelas forças do Governo Vargas, logo após, a intentona comunista, de 1935.
E foram duas as invasões, e da segunda vez, muito pior, sendo boa parte da comunidade dizimada, atingida por ataques aéreos.E esta obra prima que tive oportunidade de assistir, retorna restaurada e inédita em 4k, que contou com o apoio do Museu da Imagem e do Som do Ceará – MIS/CE, Instituto Mirante, Centro Técnico Audiovisual (SAV/MinC) e Iluminura Filmes, a partir de negativos originais de imagem e som.
O filme faz parte da seleção dos Clássicos desta 31ª edição do É Tudo Verdade (que está em sua reta final), ao lado de outros títulos como: “Wilsinho da Galiléia” (1978), de João Batista de Andrade, e o recente “Bardot”, de Alain Berliner e Elora Thevenet, que foi apresentado aos jornalistas, na coletiva de imprensa do festival. Através de imagens de arquivo misturadas a encenações e entrevistas com sobreviventes, Rosemberg Cariry repassa um pouco pela história da comunidade, até chegar no fatídico massacre.
A presença do boi no documentário é de suma importância, pois ele ao mesmo tempo que foi o elemento chave para a sobrevivência (apelidado de Boi Mansinho pelo Beato José Lourenço, que ganhou de presente do Padre Cícero) e um símbolo místico para seus habitantes, também foi um dos motivos que desencadearam as invasões locais. Os inimigos, achavam que o boi era santificado. Mas isto, foi um pretexto para acabar com uma comunidade, que era autossustentável. Tudo em nome do poder e do dinheiro. O colorido do filme (que está impecável com a restauração) se contrasta com esse triste episódio em cenas muitas vezes fortes, como a sequência forte da morte de um boi, que para mim chocou.
“O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” é um daqueles filmes que deveriam ser obrigatórios em salas de aula, para que seja visto, debatido e refletido por professores de história sobre um passado de lutas, resistências e de conscientização de uma comunidade igualitária e exemplo de sociedade justa, em um país tão desigual como o Brasil.
Além de dirigir, Rosemberg Cariry que é um multiartista também assina a música Caldeirão, composta para o filme. O longa ainda teve um desdobramento com o lançamento de um livro homônimo organizado pelo próprio Cariry, em parceria com o roteirista Firmino Holanda. A distribuição é da Sereia Filmes, que também está presente no festival com “O Cio da Terra”, de Rivelino Mourão.
O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
(O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, Brasil, 1986, 87 minutos, documentário)
Direção: Rosemberg Cariry
Sinopse
Depoimentos e imagens que relembram o massacre sofrido pela comunidade liderada por José Lourenço. Em um sítio no sertão do Ceará, o beato paraibano fundou a comunidade Caldeirão nos moldes socialistas. O local se tornou alvo das autoridades políticas e religiosas após a Intentona de 1935, que desencadeou o ódio ao Comunismo e a lembrança de Canudos. O resultado foi mais um episódio dramático na história do Nordeste brasileiro.
Onde assistir: É Tudo Verdade hoje, 17 de abril, às 16h na Cinemateca Brasileira – São Paulo
Amanhã dia 18 de abril, às 15h, no Estação Net Rio sala 5 e às 16h sala3 – Rio de Janeiro
Para saber mais sobre a programação do festival neste dois últimos dias basta acessar: https://etudoverdade.com.br/br/home/
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