Um líder entre o coração e a razão
Por Clarissa Kuschnir
Na vida de qualquer ser humano mudanças e decisões na maioria das vezes, são sempre difíceis. Imagina então o tamanho da responsabilidade de quem tem que decidir algumas questões políticas e sociais que mudarão a vida de uma nação, seja pelo lado bom ou ruim (dependendo do ponto de vista e das crenças de cada um). E são estes os questionamentos, que Paolo Sorrentino (“A Grande Beleza”) traz para seu novo longa “A Graça”.
Protagonizado pelo veterano Toni Servillo(“A Mão de Deus”, também de Sorrentino) sendo esta, sua sétima participação em filmes do diretor, neste instigante longa ele é Mariano De Santis, o Presidente da República Italiana, que tem seis meses para deixar o cargo e em pouco tempo, tem que decidir algumas questões controvérsias, antes de passar a faixa, para seu sucessor. Além de ocupar a cadeira há 7 anos (é o tempo máximo de duração de um presidente, pela constituição italiana), ele é reconhecido por uma passado profissional brilhante, como jurista. E com esta herança, ele leva sua vida como “Chefe de Estado”, sendo conhecido como um líder correto, mais de centrão e bem aceito pela nação e que segue com fidelidade, a cartilha jurídica do país. Ao seu lado, ele tem como seu braço direito sua filha Dorotea De Santis (Anna Ferzetti), outra brilhante jurista, workaholic, durona (como o pai), controladora, que não para de estudar as leis, mas que pensa um pouco diferente dele. E esse contraponto é bom por um lado, pois Mariano se vê em uma encruzilhada ao tomar ou não a decisão de assinar o projeto da lei, que aprova a Eutanásia, o que provoca uma série de interrogações na vida dele, que de uma lado tem o apoio da filha para ir em frente, fazendo com que ele saia com grande prestígio do cargo. Porém por outro lado, entra a questão religiosa. Justamente por ser o melhor amigo do Papa (vivido pelo ator Rufin Doh Zeyenouin), durante seus encontros e conversas sempre frequentes, ele ouve que esta decisão é totalmente equivocada, indo contra os princípios de Deus. E neste curto período é que Mariano acaba se voltando para ele mesmo, como uma forma de refletir a vida, fazendo com que ele relembre (em lindas cenas de flashbacks, que as vezes se confundem com imaginações não reais do personagem), de ótimos momentos de uma passado longínquo, de sua pequena cidade natal no interior da Itália, e de como conheceu sua inesquecível esposa (falecida há alguns anos). E todo esse processo é apresentando pelo diretor com muitos silêncios dentro do Palácio, não parecendo que fora existe vida, na cosmopolita Roma e muito menos como sabemos, que haja tanto movimento e pessoas trabalhando ao seu lado. A vida parece ser tão tranquila ali, mas o coração do homem mais poderoso do país não tem sossego, até que termine seu mandato e cumpra suas obrigações. E ao término, o barulho volta ao normal, e a vida ganha mais sentido. Mas, durante seu drama interno, Mariano entre algumas visitas oficiais e saídas também necessárias e inerentes a seu cargo, recebe poucos amigos, que a princípio sempre foram muito próximos e fiéis como a divertida e excêntrica crítica de arte Coco Valori (Milvia Marigliano) e Ugo Romani (Massimo Venturiello), amigo de infância, que tem como objetivo suceder a Mariano, mas com uma cabeça mais aberta. E são estes personagens que fazem o filme se tornar leve e divertido em diversas situações (e isso, os italianos sabem fazer bem), sendo revelado alguns segredos (envolvendo a falecida esposa de Mariano) e apresentando situações inusitadas, como se o Mariano nessas horas, fosse uma pessoa comum. E é assim que ele se vê muitas vezes, tendo também como fiel amigo, seu segurança. Mesmo com seu ritmo mais lento, a figura de Mariano surpreende em diversas situações, como a de tentar abrir sua cabeça para um gosto musical (ouvindo as músicas eletrônicas, compostas por seu filho que mora no Canadá) mais eclético, lidar com o perdão(por problemas passados) e responder a uma editora de Revista de moda, de como enxerga este mercado, que para um intelectual como ele, parece tão fútil. Tudo é muito bem amarrado na história, que ainda traz uma Papa negro (na última eleição do Conclave, teve candidato negro, para ocupar o cargo) e totalmente moderno, que o encontra sem seguranças (algo inimaginável, pelo cargo que ocupa), dirigindo uma motocicleta. Melhor impossível. Pela sua excelente atuação, Toni Servillo levou o prestigiado prêmio de Melhor Ator, concedido no Festival Internacional de Cinema de Veneza, em 2025. No Brasil ele chega aos cinemas hoje, distribuído em parceria inédita pela Mubi e Pandora Filmes.
A Graça
(La Grazie, Itália, 2025, 133 minutos, Ficção)
Direção: Paolo Sorrentino
Com: Toni Servillo, Anna Ferzetti, Milvia Marigliano; Massimo Venturiello, Alexandra Gottschlich, Rufin Doh Zeyenouin
Sinopse: Um presidente italiano viúvo enfrenta crises morais sobre a legislação da eutanásia e o indulto a assassinos, enquanto lida com a infidelidade da falecida esposa em seus últimos meses de mandato.
Onde Assistir: Nos Cinemas
Distribuição: Mubi e Pandora Filmes
Assista ao Trailer abaixo
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