
Por Clarissa Kuschnir
Memórias que se espalharam entre poeira e escombros
Parece que foi ontem que assisti ao noticiário do desabamento do prédio Wilton Paz de Almeida localizado no Largo do Paissandu, centro de SP. E este ontem vai completar em maio, 8 anos de uma tragédia que deixou sete pessoas mortas e dois desaparecidos. Na época, o prédio todo espelhado de 24 andares, construído pelo renomado arquiteto francês Roger Zmekhol( falecido em 1976) nos anos 60, e que já foi sede do INSS e da Polícia Federal nos anos finais da Ditadura Militar, servia como moradia de ocupação popular. Já não estava mais tão bonito, mas ainda assim, cumpria seu papel social acolhendo aquelas pessoas. E para apresentar um pouco da história sobre o prédio que já foi um ícone da arquitetura moderna no país e da capital paulistana, a cineasta Denise Zmekhol (filha do Roger), teve que deixar de lado seus problemas mal resolvidos com seu pai no passado, para se debruçar em uma obra que acaba sendo informativa, social e ao mesmo, poética. Foi preciso para a cineasta se despir de sentimentos, para contar a história de uma forma cronológica sobre suas origens familiares, a vinda de seu pai ao Brasil que era francês e filho de pais sírios e que estudou arquitetura da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), se tornando, um dos arquitetos mais renomados na época. Só de projetos que tinha no papel, eram mais de 200. Suas construções além do Pele de Vidro podem ser vistas nos arredores da Paulista, como: o Edificio Augusta; o Edíficio Executive Center, no Viaduto 9 de Julho; a Residência Salomão Charach; a Residência Armando Santamaria e Residência Roger Zmekhol, no Butantã, que ele construiu para sua família morar. E foi lá, onde hoje moram outras pessoas, que Denise tem lembranças muitos felizes de sua infância e também de momentos de tensão, de quando brigou com seu pai tendo rompido laços quando saiu de casa. E a volta foi justamente para tentar resgatar um passado e conhecer melhor seu pai, através de suas obras. Antes dos desabamento do prédio, Denise tentou negociar para poder conhecer as pessoas que estavam morando no edifício. De uma certa maneira, ela deixa claro que assim como ela, apesar das diferenças de classes entre ela e esses moradores, ela se sentia conectada com eles, através de seu pai. E um dos momentos mais bonitos do documentário é justamente depois que ela encontra com esses moradores já desabrigados, no pós incêndio, e conta que foi seu pai que construiu o edifício. E assim ela é abraçada por moradores e sente o quanto aquelas pessoas gostavam de morar ali, pois era a única forma de não estarem nas ruas. Um dos moradores chega a dizer que ou ele comia ou pagava o aluguel. E este é um problema sérios nas grades cidades. São Paulo tem mais de 380 mil famílias que não têm onde morar, e esse prédios abandonados (muitos de propriedade da prefeitura) estão lá mal utilizados. Pele de Vidro poderia ter tido um destino diferente. O prédio chegou a ter um projeto do arquiteto Franco-Argentino Pablo Georgieff, que queria construir uma espécie de ocupação cultural em diversos andares, mas infelizmente não conseguiu levantar recursos para isso. Além da narração da própria Denise, ela utiliza imagens de arquivos familiares, entrevistas com especialistas e arquitetos, além das belas imagens da cidade de São Paulo. A abertura já é uma poesia tendo o mar, as cartas narradas (de pai para filha e vice e versa, na voz de Denise), encerrando com os escombros do que já foi o espelhado e icônico edifício, na Selva de Pedra. O longa é uma Coprodução Brasil/EUA e circulou em mais de 60 festivais ao redor do mundo tendo recebido 13 prêmios, incluindo melhor longa documental em festivais de arquitetura na França, Itália, Espanha e Suécia. Recebeu também o prêmio do público no Mill Valley Film Festival (EUA) e menção honrosa no Ischia Film Festival (Itália). Eu digo que é um filme de resgate familiar, e também uma obra para quem aprecia arquitetura, fotografia, preservação do patrimônio e quer conhecer um pouco mais sobre a história de nossas construções, que hoje passam por um sério problema de crescimento, da verticalização desenfreada.
Pele de Vidro
(Pele de Vidro, Brasil, 2025, 89 minutos, documentário)
Direção: Denise Zmekhol
Sinopse: Ensaio cinematográfico poético e profundamente pessoal que explora a vida e a obra do arquiteto Roger Zmekhol, e seu icônico edifício Wilton Paes de Almeida em São Paulo. Projetado por Roger e inaugurado em 1968, o arranha-céu, carinhosamente conhecido como Pele de Vidro, desabou tragicamente em 1° de maio de 2018 após um incêndio devastador.
Onde assistir: Nos Cinemas
Distribuição: Autoral Filmes
Assista ao Trailer abaixo
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