Por Clarissa Kuschnir
Quando o coração fala mais alto que a razão
Algumas paixões são tão fulminantes que fogem totalmente do controle, para nós seres humanos. Afinal de contas somos imperfeitos, e estamos aqui neste mundo para aprender (para quem acredita neste conceito). E que atire a primeira pedra, quem nunca se sentiu assim. O cinema conhece bem este roteiro, e são muitos os filmes que já retrataram o assunto como: “Atração Fatal”, de Adrian Lyne, cineasta britânico que ainda dirigiu outros clássicos na mesma linha como “9 Semana e Meia de Amor”; Lolita “(homônimo do livro de Vladimir Nabokov);” Infidelidade”; “Proposta Indecente”. No Japão temos o polêmico “Império dos Sentidos”, de Nagisa Ōshima. Ou seja, a lista é imensa, muitos mataram e se mataram por amor, outros para não enlouquecer, acabam indo embora, e eu teria que escrever, um artigo só sobre isso. No Brasil, já que esta crítica é sobre o nosso cinema, me veio em mente o ótimo “Um Lobo Atrás da Porta”, de Fernando Coimbra, e na linha LGBTQQICAAPF2K+ “Tatuagem”, de Hilton Lacerda; “Vento Seco”, de Daniel Nolasco; o mais recente “Baby”, de Marcelo Caetano e chegando aos cinemas na quinta-feira dia 02, “Ruas da Glória”, de Felipe Sholl (“Fala Comigo”). Depois de percorrer diversos festivais e ganhar prêmios no Festival do Rio (melhor atriz e ator coadjuvante, para Alejandro Claveaux e Diva Menner), o longa se junta a esta lista de títulos, em que a paixão fala mais alto. Quando o protagonista Gabriel (Caio Macedo), um professor de história pernambucano se muda para o Rio, para lecionar em um cursinho pré-vestibular, ele acaba se apaixonando à primeira vista, pelo Uruguaio Adriano (Alejandro Claveaux), que ele conhece na boate Glória, que tem como proprietária Mônica (estreia no cinema da cantora trans Diva Menner). Tudo poderia ser perfeito se Adriano (lindo e sedutor), não fosse um garoto de programa problemático, viciado em cocaína e sem grandes expectativas na vida. O que ele quer mesmo, é viver a vida e fazer muito sexo, como se não houvesse o amanhã. Como no caso de Gabriel o coração falou mais alto que a razão, sua vida acaba se tornando um inferno ao tentar manter um relacionamento saudável com Adriano (inclusive mudando-se para o apartamento dele, e pagando suas dívidas, depois de um de seus desaparecimentos). Mas essa obsessão dele para encontrar Adriano tem uma explicação psicológica, que vamos entendo durante o filme. Em meio a pressão de sua família para que ele volte para o Recife, o sonho de morar na Cidade Maravilhosa, acaba se tornando um martírio, onde ele tem que lutar, contra seus próprios desejos. As transas entre os dois são sempre muito intensas (os atores mostram muita química entre eles, assim como o restante do elenco) e repletas de tesão e gritarias (que achei um pouco exageradas). Inclusive o filme tem essa pegada. Quando Gabriel não está com Adriano, ele tenta encontrar afeto em outros braços, e acaba tendo algumas noite repletas de erotismo, seja em dois, três ou mais pessoas. O sexo no filme é livre entre os personagens, sem julgamentos, principalmente aos garotos de programa (na maioria das vezes, malvistos pela sociedade), que acabam acolhendo Gabriel, como amigo. E aí que se vê que não importa o que você faz, mas sim a falta de caráter do personagem, no caso de Adriano. O próprio Gabriel ao tentar se prostituir, a primeira vez com o próprio Adriano em um trisal, onde a terceira pessoa é Ernesto Piccolo (em participação especial) e a segunda vez na rua, ele acaba se dando mal, ao encontrar com um macho sem escrúpulos. Afinal de contas, o negócio dele é amar, sentir prazer, e ser amado. E o filme é sobre isso. É sobre os afetos e a falta deles. E muitas vezes, os encontramos, onde menos se espera. Apesar de achar que o filme poderia ser um pouco mais enxuto, eu adoro ver essa diversidade nas telas, onde o que importa são as histórias que atravessam seus personagens e suas complexidades, que vão muito além, do que o sexo em si. “Ruas de Glória” chega aos cinemas, com distribuição da Retrato Filmes.
Ruas da Glória
( Ruas da Glória, Brasil, 2024, 103 minutos ficção)
Direção: Felipe Sholl
Com: Caio Macedo, Alejandro Claveaux, Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini, Ernesto Piccolo, Wilson Rabelo, Edmilson Barros e Daniel Rangel
Sinopse: Ao sofrer uma grande perda, Gabriel deixa o Recife para se reinventar no Rio de Janeiro. Sozinho na nova cidade, o professor encontra Adriano, um garoto de programa com quem desencadeia uma conturbada paixão, que beira a obsessão.
Onde assistir: Nos Cinemas
Distribuição: Retrato Filmes
Assista ao trailer abaixo:
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