
Por Clarissa Kuschnir
Quando o som que ecoa nos corredores não é mais o riso, mas o disparo
Nos primeiros minutos de “Quartos Vazios” me veio em mente, um filme que me marcou muito no começo dos anos 2000 que é “O Quarto do Filho”, de Nani Moretti. Só que diferente da ficção do cineasta italiano, este curta de um pouco mais de meia hora (um média para os padrões brasileiros) que concorre pelos EUA ao Oscar de curta-metragem, na categoria de documentário é um retrato real, do que vive a sociedade norte-americana, há alguns anos. Só em 2025 segundo o K-12 School Shooting Database, foram cerca de 230 incidentes (entre disparos, exibição de arma, ameaças) com armas de fogo, em escola do país. E como se sabe esta é uma questão social e política muito séria, já que a aquisição de armas de fogo por lá é muito mais fácil, do que em diversos outros lugares desenvolvidos do mundo. Qualquer pessoa que possua cidadania norte americana pode ter arma, e essa aquisição se justificam como um meio de proteção e autodefesa. E são justamente as armas de fogo, a maior causa de letalidade de crianças e adolescentes no país, o que muito poderia ser evitado, se as leis fossem diferentes. Não é a primeira vez que o cinema documental traz a questão para as telas. No mesmo ano da ficção de Moretti, Michael Moore dirigiu o longa documentário “Tiros em Columbine” (citado no final do curta), o que lhe rendeu um Oscar em 2003. Só que ali, Moore que é conhecido por sua forte critica a sociedade norte-americana, ele retrata o triste episódio mostrando de forma mais investigativa e reforça, o quanto é fácil andar armado, na Terra do Tio Sam. Em “Quartos Vazios”, dirigido por Joshua Seftel , o cineasta traz um outro lado do problema: a triste realidade dos pais que perderam seus filhos em ataques escolares, e como eles passam a conviver e seguir em frente, com suas dores. Não é um filme fácil de ver, principalmente para quem tem filho. O cineasta consegue nos colocar como se tivéssemos, no lugar desses pais. E é justamente isto que o jornalista Steve Hartman (conhecido por retratar por muitos anos na CBS News, o cotidiano de pessoas comuns e muitas vezes, em matérias interessantes e engraçadas), e o fotógrafo Lou Boop (ambos pais), se deslocam para alguns locais dos Estados Unidos, com o intuito de ouvir os pais e fotografar os quartos de seus filhos (todos com permissão). E a parte delicada é que os pais mantêm os quartos, do jeito que sempre foram. Inclusive um deles, com roupas sujas, que nem lavadas foram. Tudo para sentir a presença dos filhos que partiram. Os depoimento são bem tocantes e incômodos, porém com muito respeito dos entrevistados, que com este trabalho viram a outra face do ser humano. Eles passam a tomar as dores, muito além de seus trabalhos profissionais. Aqui, Steve Hartman vira o personagem observado, pois o objetivo deste trabalho foi uma reportagem jornalística, que virou este documentário, que poderia ser um longa. Impossível, não se emocionar.
Ficha Técnica
Quartos Vazios
(All The Empty Rooms, EUA, 2025, 33 Minutos, documentário)
Direção: Joshua Seftel
Um jornalista e um fotógrafo registram os quartos deixados por crianças que foram mortas em tiroteios em escolas.
Onde assistir: Netflix
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