A Hora do Recreio
Por Clarissa Kuschnir
A educação muda o mundo
Alguns filmes nos envolvem de tal maneira que quando eles terminam, nós vemos o quanto realmente eles conseguem mexer com as nossas emoções e cumprem seus papéis sociais. Em “Hora do Recreio” (um dos títulos que não tinha conseguido assistir, no É Tudo Verdade, o ano passado), de Lúcia Murat (“Praça Paris”, “O Mensageiro”) o envolver já começa pelo próprio título que nos remete a escola, a infância e adolescência, já que o intervalo escolar (pelo menos para mim e acredito que para muitos), sempre foi uma espécie de socialização e relaxamento mental, em meio as cobranças e as responsabilidades, das salas de aula. No caso aqui do filme de Lúcia, o título vai muito além destes 20 e 30 minutos tão essenciais, na vida de qualquer aluno e professor. Entre o documentário e uma performance final usando a obra de Clara dos Anjos, de Lima Barreto, a cineasta consegue colocar com maestria como protagonistas, os alunos das escolas públicas, da periferia do Rio de Janeiro. E segundo a diretora em bate papo pós pré-estreia em São Paulo, tudo fluiu de maneira muito natural entre os alunos. E o resultado, a gente vê na tela. Na primeira escola (que teve que ser improvisada (por conta da não autorização, para filmar dentro da instituição), os alunos do ensino médio falam sobre a violência feminina, sofrida pelas suas mães e por elas mesmas (mais atual impossível). E entre os vários depoimentos, muitos alunos se emocionam, fazendo o público se emocionar junto. E dentro deste contexto de violência doméstica, eles fazem questão de deixar claro, que essas mães são verdadeiras guerreiras, o que realmente são. E mais guerreira ainda neste meio é a professora, uma mulher preta de periferia, que reforça o quanto a escola e estudo é fundamental, para mudar os rumos da vida, de um ser humano. Na segunda escola que não foi possível filmar por estar fechada, por problemas de operação policial no Complexo da Penha, Lucia acabou encontrado a solução de pegar alguns alunos e fazer uma representação com máscaras com recortes de jornais com dizeres de uma realidade social, das periferias(achei essa improvisação sensacional), em paralelo a uma entrevista com uma moradora, que é uma protetora da comunidade, relatando que é preciso este tipo de serviço, para que não se corra o risco de bala perdida(para quem lembra do episódio de bala perdida no Rio, culminando na morte de uma menina de 8 anos durante o recreio em uma escola, tá aí a justificativa do título).Na terceira escola em que se aborda o racismo, uma professora leva seus alunos do ensino fundamental, para conhecerem o centro do Rio de Janeiro, onde eles acabam aprendendo sobre as história da cidade e sua ligação social, com seus antepassados. Para mim, este é um dos momentos mais interessantes do documentário, com as imagens dos alunos dentro do museu, discutindo e refletindo sobre o que está ali, diante de seus olhos. E a gente fica pensando, como seria bom se isso acontecesse, em todas as escolas públicas do Brasil. Na última escola, a cineasta encerra muito bem, com uma encenação de Clara dos Anjos, de Lima Barreto feita por atores(estudantes) de grupos icônicos como o Nós do Morro (Vidigal), Grupo de Teatro VOZES! (Cantagalo-Pavão-Pavãozinho) e Instituto Arteiros (Cidade de Deus), mesclando com depoimentos de alunos levantando questões sobre o livro, em sala de aula. Lúcia ainda complementa este trabalho híbrido com várias canções do Hip Hop, como trilha sonora. Sem dúvida este é um dos melhores trabalhos de Lúcia Murat, que tem sua carreira como cineasta marcada pela militância, principalmente levando para as telas, o tema sobre a Ditadura Militar, sempre muito presente durante sua vida (ela foi uma sobrevivente). Aqui em “Hora do Recreio” apesar de apresentar histórias tristes e impactantes, é um filme que traduz muito otimismo e que sem dúvida é uma obra obrigatória, que tem que circular nas escolas (o longa está sendo exibido em várias instituições públicas, do Rio de Janeiro) de todo o país, sobretudo nas particulares, para que os estudantes de classes mais abastadas, saiam de suas bolhas, e vejam o que se passa, no Brasil real. E a educação é o grande pilar para as futuras gerações. A Hora do Recreio fez sua estreia o ano passado na 75ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, na Mostra Generation 14plus, onde conquistou uma Menção Especial, do Júri Jovem. O longa já está em cartaz nos circuitos comerciais, com distribuição da Imovision.
Hora do Recreio
(A Hora do Recreio, Brasil, 83 minutos, Documentário)
Direção: Lucia Murat
Hora do Recreio trata a questão da educação no Brasil, tanto através de uma abordagem documental quanto ficcional. Os alunos falam de problemas que os atingem como a violência, o racismo e o feminicídio, citando experiências de suas famílias. Além disso, diante da impossibilidade de se filmar em escolas cercadas por operações policiais, eles criam performances representando a situação. Em outra escola, encenam uma peça baseada no livro Clara dos Anjos, de Lima Barreto, escrito no início do século XX, que mostra o abuso sofrido por uma jovem negra suburbana. A partir dessa dramatização, discutem a história de Clara com suas vivências hoje.
Assista ao trailer
Onde assistir: Nos Cinemas
Distribuição: Imovision
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