Por Clarissa Kuschnir
Há alguns anos eu viajo para Pernambuco há trabalho. Já passei por algumas cidades como Caruaru, comi no famoso “Rei das Coxinhas” que fica na estrada a caminho de Toritama e Taquaritinga do Norte, conheci algumas praias fora da capital, mas jamais imaginei, uma Buenos Aires no Brasil. E sim, há uma cidade com o nome da capital argentina, na Zona da Mata Norte pernambucana e muito perto do Recife. São apenas 80 quilômetros que separam a capital da cidade de 13 mil habitantes, que virou o documentário “BuenosAires”, da cineasta Tuca Siqueira (“Iracemas”, “Amores de Chumbo”).
No mínimo é muito curioso para um brasileiro, querer assistir um filme, com este nome. E as respostas vão sendo dadas durante o documentário, narrado em espanhol que já começa mostrando uma professora de espanhol dando aula gratuita, para apenas três alunos interessados. Afinal de contas, muitas vezes essas pequenas cidades, acabam carecendo até, de boas escolas. A semelhança mesmo se faz: pelo time de futebol que é o Boca Juniors e o rival uruguaio Peñarol, e eles têm um campeonato; a idolatria a Leonel Messi; as casas que foram coloridas para parecer o Caminito, um dos mais famosos cartões postais de Buenos Aires (que no filme é mostrado e citado); o argentino que mora na cidade e, as empanadas. Na rádio toca Xaxado, Baião e o Tango, afinal de contas como disse o radialista, a música é universal. Tirando essas particularidades (que parecem muitas), a cidade é pacata, como a maioria dos interiores. E neste sentido me bateu curiosidade de conhecer melhor sobre o local, sobre seus habitantes, além das semelhanças. Talvez pela obra ter focado muito na questão do futebol faltou na minha opinião mais brasilidade, apesar do desfile de Maracatu e da cultura da cana-de açúcar, em tela. E chega uma hora, em que o filme se torna redundante, apesar da curta minutagem.
Mas entendo que a cineasta se focou mesmo nas identidades destes poucos personagens, que de alguma maneira se conectam ao país vizinho, separado a um pouco mais de 4.600 km. E a relação do futebol foi justamente porque as filmagens se dão na Copa de 2022, em que a Argentina foi campeã. E ambos os países, se assemelham muito no quesito, amor ao futebol. E como já foi dito, o filme é narrado em espanhol e o português só se faz presente, nas falas dos habitantes da cidade. Um dos personagens mais interessante é o do coveiro, que conta as curiosidades do cemitério e sonha em ser enterrado ali. E na narração em off, há a citação do Cemitério da Recoleta, famoso em Buenos Aires. O filme poderia sim ter se aprofundado mais, porém não deixa de ser uma obra que traz um fato geográfico desconhecido, da grande maioria dos brasileiros. Ou seja, como diz a letra “Querelas do Brasil” composta por Aldir Blanc e Mauricio Tapajós Gomes e interpretada lindamente por Elis Regina, “O Brasil não conhece o Brasil”.
Buenosaires
(Buenosaires, Brasil, 2025, 70 minutos, Documentário)
Direção: Tuca Siqueira
Sinopse
Na Zona da Mata de Pernambuco, Nordeste do Brasil, o município de Buenos Aires tem o mesmo nome da capital da Argentina. Uma professora de espanhol apresenta personagens e lugares da cidade, uma paisagem de contrastes sociais com influências das diferentes culturas. Apesar de não haver vestígios da passagem de portenhos pelo lugar, alguns habitantes enfatizam a “coincidência” de diversas formas e criam um vínculo afetivo com o país vizinho. Jogos de futebol, um desfile do Maracatu Estrela Dourada e a chegada de um argentino como novo morador evidenciam essas ligações durante a última Copa do Mundo.
Onde assistir: Nos Cinemas
Distribuição: Arthouse Distribuidora.
Confira o trailer abaixo:
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