Reta final do BAFICI com salas com bom público e encontro sobre co-produção entre as províncias argentinas
Por: Sebastião Albano, de Buenos Aires
Nestes dias o festival esquentou um pouco despeito de o ambiente se pintar de pleno outono, ilustrados por folhas caídas pelos parques citadinos percorridos por mim enquanto me dirigia ao Hotel Savoy, em busca de um dado para o projeto Orbis Tertius. Entre a variedade humana da capital e os ônibus vintage (propositalmente adornados com filetes porteños, imprimindo-lhes tônus provincianos) ouviam-se os agudos de Ella Fitzgerald: Savoy, the home of sweet romance/ Savoy, it wins you with a glance/ Savoy, gives happy feet a chance to dance. Buenos Aires não é uma metrópole pós-colonial (talvez epíteto mais afim às utopias acadêmicas) senão neocolonial ou neoimperial, em face da performance da grande política de Javier Milei. Por suas pautas cosmopolitas o BAFICI tende a nos desviar dessa certeza.
Na edição argentina do Le Monde Diplomatique a resenha de Lala Toutonian para o livro Fascismo Cosplay (Luis Ignacio García, Buenos Aires: Caja Negra, 2026) alerta para o fato de hoje nos inquietarmos muito com o questionamento de “?O que acontece quando o autoritarismo não se apresenta com essa solenidade trágica senão com o tom burlesco da farsa?” (tradução livre). Logo advém o axioma de Marx ao prognosticar há quase dois séculos que a história se repete, acontece primeiro como tragédia e logo chega como farsa. O verbo aparecer, derivativo de parecer (?), é mesmo sintomático e explica tanto o primeiro quanto o segundo enigmas.
A boa seleção dos filmes e das sessões especiais no BAFICI nos leva a lê-lo como aquela expressão de intelectuais e artistas em favor da liberdade no sentido mais progressista dessa mônada política, inclusive como instrumento para todas as formações discursivas. As “Actividades Especiales” denominadas “Industria em foco: producción sustentable”e “Federalismo de acción: herramientas para la coproducción interprovincial” programadas para o Hall Casacuberta revelam a urgência de semelhantes debates que no Brasil, no que tange ao último tópico, materializam-se talvez na descentralização dos editais.
Num só dia de festival quase todo o circuito de salas projeta quase todas as seções. Por exemplo: Ontem, no Cine Cacodelphia 2, ocorreu a mostra da competição de curtas da Argentina, ao passo em que no Cacodelphia 3 a “Competição Internacional” e na sala Lugones passavam os filmes da seção “Políticas” e no Cacodelphia 3 as “Trajetórias” (nesta ocasião trajetórias de curta-metragistas como Sigfried A. Fruhauf, Martin Mainoli, Giuseppe Boccassini; no Cine Houssay 1, “Comedias”; no Recoleta 3 “Música”; no Recoleta 2 a trajetória de Portabella, no 25 de Mayo a seção “Tornar-se grande”, no Alvear a “Competição Internacional”, etc. São 21 seções para nove sedes.
Por certo, o diretor brasileiro de Porto Alegre, Salomão Scliar, foi um dos homenageados com a projeção de seu filme restaurado na seção “Resgates”. “Vento norte” (1951), o primeiro longa sonoro do Rio Grande do Sul é guardado na histórica cinemateca Capitólio que realizou o projeto de digitalização em 4K, por meio da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), em parceria com a Cinemateca Brasileira de São Paulo.
Ademais do surpreendente longa “Nosso segredo” (Grace Passô, 2026), o documentário “Quando o Brasil era moderno” (Fabiano Maciel, 2025) também representou o espírito nacional com a história da ascensão dos valores do International Style, do funcionalismo e do modernismo no Brasil, na América Latina o país que mais se evocou sobre as soluções oferecidas por essas linhas e pensamento espacial. Domingo 26 de abril encerra-se a XXVII edição do BAFICI.
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