Por Clarissa Kuschnir
Entre púlpitos improvisados e vozes ainda em formação
Em semana do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários que ocorre em paralelo em São Paulo e Rio de Janeiro “A Voz de Deus”, de Miguel Antunes Ramos chega ao circuito comercial, distribuído pela Embaúba Filmes, para somar, mais uma boa obra documental nacional. E o grande mérito deste longa é que o cineasta não toma nenhum partido em cima do que está sendo vivido e contado em tela. Muito pelo contrário, não há julgamentos e estes ficam a critério do espectador. Filmado em cinco anos, e em transições políticas, Miguel acompanha em paralelo Daniel Pentecoste e João Vitor Oto, dois jovens pregadores da Assembleia de Deus. Daniel, já quase adulto, chegou a ser a maior celebridade mirim quando criança, levando milhões de fiéis a igreja com suas pregações, porém hoje, ele luta para conseguir sobreviver e trabalhar sem grandes expectativas, restando se mudar para São Paulo com a mulher e os filhos anos depois, para tentar uma vida melhor. Já João Vitor que está começando sua carreira como pregador mirim aos 7 anos de idade, é um menino que além das obrigações e compromissos com a igreja, vive seu dia a dia, como qualquer criança. A câmera só observa o cotidiano dos meninos, seja no trabalho, nos estudos (da escola ou bíblicos), nas brincadeiras (de rua, videogames), nas relações com seus amigos e sobretudo com seus familiares. E como se estivéssemos acompanhando o cotidiano de duas pessoas comuns como nós, nossos filhos (para quem é pai ou mãe), nossos amigos. E tudo isso é apresentado de forma muito natural. A gente passa a gostar, daqueles personagens. O que diferencia este meninos, são o dom da palavra. E isso, eles têm de sobra. Seja você religioso ou não, só pelo fato destes pequemos pastores conseguirem convencer milhões de pessoas a os acompanharem com seus conhecimentos teológicos evangélicos ainda tão jovens, já é um caminho para acreditarem o sucesso, mesmo que ele não venha, como aconteceu com Daniel. Queria eu, ter esse dom de comunicação, como jornalista. É são nos momentos de pregação justamente o ponto em que vemos, como esses meninos são moldados (mesmo com seus dons) pela família(repleta de expectativas) e pela mídia, através das redes sociais. É aí que entra o nosso livre arbítrio de pensarmos o quanto a religião pode ser benéfica na vida de uma pessoa, ou simplesmente um caminho para o fanatismo e poder, seja ele de convencer as pessoas a se tornarem fiéis cada vez mais envolvidos em suas bolhas, seja para poderem alcançar coisas, além da vida espiritual. Afinal de contas somos humanos, vivemos em um mundo capitalista, onde o poder de compra nos diferencia um dos outros. E esses meninos têm seus sonhos fora da igreja. Eles estão sempre impecáveis, bem arrumados, principalmente, durante os cultos. Mas ser um religioso e viver a espiritualidade plena, vai além de todo uma ritual. Afinal de contas Jesus Cristo, nunca precisou de grandes templos para fazer suas pregações, muito pelo contrário. E é isso, que eu acredito. E este documentário se faz necessário, em um momento de tanta polarização no Brasil, principalmente política, onde Miguel consegue de uma maneira muito sutil e novamente, sem tomar partido seja ele de esquerda ou direita. Ele pega justamente o momentos de transição de governo, em 2022, para mostrar o quanto a religião se faz presente na política, evitando questionamentos. Estas respostas são dadas, apenas através de seus personagens. E isso, eu achei muito rico do ponto de vista de linguagem cinematográfica, pois o documentário traz uma reflexão importante sobre a religião, a fé, a política inserida neste meio e e o mais importante diante disto tudo, a infância. “A Voz de Deus” chega hoje aos cinemas, depois de percorrer importantes festivais pelo Brasil, em 2025 como: Olhar de Cinema em Curitiba, onde recebeu o prêmio de melhor montagem, o Cine BH, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival de Brasília e mais recente, conquistou o Prêmio Especial do Júri, na seção oficial de documentários do Festival de Málaga.
A Voz de Deus
(A Voz de Deus, Brasil, 2025, 85 minutos, Documentário)
Direção: Miguel Antunes Ramos
Elenco: Daniel Pentecoste e João Vitor Ota
SINOPSE
Duas crianças pregadoras buscam o caminho para uma vida melhor por meio da fé. Daniel Pentecoste foi o pregador infantil mais famoso do Brasil, mas conforme cresce enfrenta a frustração de um futuro incerto. João Vitor está no auge, com um milhão de seguidores. Entre lives e smartphones, prega para multidões. O filme revela as infâncias escondidas sob a construção de duas figuras públicas, oferecendo uma reflexão sobre um Brasil em transformação, em que política e religião frequentemente se confundem.
Distribuição: Embaúba Filmes
Confira o trailer abaixo:
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