O Curta Cinema já começou no Rio de Janeiro https://cinecappuccino.com.br/festivais-de-cinema/curta-cinema-anuncia-selecionados-da-sua-35a-edicao/ e segue até o dia 01 de abril, e eu preparei algumas críticas para indicar estes seis filmes diversos que fazem parte da programação do festival. Seguem abaixo as críticas, e espero gostem das dicas.
Por Clarissa Kuschnir
Serra Pelada: A Terra não é dos Homens
Serra Pelada, localizada no Sudeste do Pará, até hoje detém o título de maior garimpo a céu aberto do mundo. Para quem lembra bem, foi nos anos 80 que o local se tornou disputado pelos garimpeiros do Brasil, sendo estimado cerca de 100 mil trabalhadores em busca do ouro e riqueza. Mas como se sabe, o tão sonhando ouro se tornou um pesadelo para muitos, pois as condições em que viviam esses garimpeiros, era a pior possível. E a maioria ficou na pobreza. Sem contar que por causa dessa exploração a vegetação local foi afetada, modificando o ecossistema da cidade. O local onde era o garimpo se transformou em uma cratera e formou um lago. No cinema muito já foi retratado sobre a época, mas nunca pelo olhar feminino como fez agora a cineasta Babi Santana, em parceria com Victor Costa. A dupla se debruçou em um roteiro muito preciso trazendo para as telas o documentário “Serra Pelada: A Terra Não é dos Homens” ouvindo apenas as mulheres que viveram a época do auge (quando foi permitido entrar mulher, que foi a partir de 1986). Com um recorte em dois momentos diferentes, o primeiro filmado em 2018 e o segundo em 2024, as entrevistadas em meios aos seus ofícios diários, contam como era viver naqueles tempos ao lado dos maridos, e como elas vivem hoje. Os depoimentos são ótimos, com histórias ricas e verdadeiras sem medo de falar algumas verdades políticas e sociais, do que já foi e o que se tornou o lugar. E algumas mulheres que saíram, acabaram voltando por gostarem do lugar, assim como uma outra entrevistada, que sonha em voltar para o Maranhão. O que me impressionou foi a beleza da fotografia retratada no documentário, de um lugar que já foi a “terra prometida” como falou uma das entrevistas e que hoje vive na miséria. O curta estreia no Panorama Latino do Curta Cinema que será exibido, em duas sessões. Para Babi Fontana e Victor Costa é uma alegria imensa e uma oportunidade especial poder compartilhar o filme, em um dos festivais mais importantes dedicados ao curta-metragem no Brasil.
A exibição do filme será no próximo domingo dia 29 de março, às 10h e 31 às 15h no Estação Net Botafogo.
Samba Infinito
Desde quando assisti “Vidas Cinzas” (2017) e conheci o cineasta Leonardo Martinelli já percebi que ali havia um jovem com bastante talento, persistência e confiança, que veio para ganhar o mundo. E o mundo que me refiro é porque seus filmes sempre com temáticas sociais e políticas vividas das grandes cidades (no caso dele, o Rio de Janeiro) trazendo trabalhadores marginalizados ou precarizados, têm percorrido pelos mais diversos festivais nacionais e internacionais (já somam 300) incluindo Cannes, Locarno, Clermont Ferrand, Biarritz, Cine PE, Gramado, Tiradentes, LATAM Short Film Festival. Em “Samba Infinito” (que estreou na competição de curtas da Semaine de la Critique) ele retorna ao musical (como pano de fundo, como fez no premiado e ótimo Fantasma Neon, que em breve vai virar um longa) retratando uma gari (Alexandre Amador), que tem que trabalhar duro durante o Carnaval Carioca, depois de enfrentar uma tragédia familiar, com a perda de sua irmã. Em meios a folia do Carnaval enquanto todo mundo se diverte pelas ruas cariocas, ele enfrenta o luto que acaba sendo amenizado, depois que ajuda um garoto perdido, a encontrar sua mãe. Apesar do tema, o filme se colore por si só com as fantasias e números musicais, afinal de contas, cantar e dançar sempre servem como excelentes ferramentas terapêuticas. E esse é o contraponto da obra. O curta ainda conta com uma ótima montagem e direção de arte (não é à toa que levou os Kikitos nessas duas categorias, além de melhor filme pelo júri popular, em Gramado). Sem contar que o elenco se complementa com as participações de Camila Pitanga e Gilberto Gil que por si só, já traz um grande peso ao título.
O filme faz parte da competição internacional 6 e será exibido no dia 31 às 19h, No Estação Net Rio 5
Vim e Irei como uma Profecia
O cineasta Fábio Rogério tem circulado bem em festivais nacionais e também nos internacionais com seus filmes, onde o proposito é experimentar e ousar, sem medo de errar. E tem dado certo. “Em Vim e irei com uma Profecia” é mais um de seus filmes em parceria com o crítico, pesquisador, ensaista e ator Jean-Claude Bernardet (falecido em julho de 2025). Aqui durante a pandemia ele filmou seis encontros virtuais entre Bernardet e o crítico de cinema sergipano, Wesley Pereira de Castro (“Um Minuto é Uma Eternidade Para quem está Sofrendo”, primeiro longa de Fábio com codireção de Wesley) e o resultado é um diálogo onde ambos interpretam de forma muito natural (como se ali fosse uma conversa privada) sobre as suas vidas, problemas, falta de emprego, sexualidades, desejos, sem se preocuparem com o que está sendo visto e ouvido. É tudo cem censura. E não tem como não se interessar por cada palavra ali da dupla que causa a dúvida de estarem ou não, falando verdades. Ou será só uma encenação (Jean- Claude sempre foi um ótimo ator)? E a graça está aí nos diálogos, em meio a várias imagens triplicadas e coloridas, dos protagonistas em diversas situações. E a gente sai com um sensação de querer saber um pouco mais, sobre essa curiosa e instigante, experimentação cinematográfica.
O filme faz parte da competição Nacional 5 e será exibido no dia 30 de março às 19h no Estação Net Rio 5
A Nave que Nunca Pousa
Este é um curta paraibano da cineasta Ellen Moraes, que tem circulado bem nos festivais cinema. E ele toca em um assunto que ao mesmo tempo que soa como progresso para alguns, se torna um inferno para outros. Em nosso imaginário, o sertão é um lugar silencioso onde apenas o Sol e a seca se fazem presentes. E anoite, a Lua transborda de beleza. E na maioria das vezes é assim mesmo. Porém em Quilombo do Talhado, terra do icônico Aruanda (que aparece no curta, e tem que assistir para entender) que fica na divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte desde a chegada da energia eólica, seus habitantes não têm mais sossego. O barulho é ensurdecedor e isso causa muitos transtornos. É como se as hélices de um avião ficassem ligadas o tempo todo. E esta é a premissa deste excelente curta, que fica entre a ficção cientifica e o documentário onde a ótima captação de som, consegue transmitir o incomodo, que se passa entre a vizinhança. Este é um daqueles filmes necessários que cumprem seu papel social e trazem uma reflexão para os dias de hoje, que nem sempre o progresso é tão bem-vindo assim.
O filme faz parte da Competição Primeiros Quadros 3 e será exibido no dia 30 de março às 21h, no Estação Net Rio 5
Parla Italiano
A vantagem de assistir aos curtas-metragens é a diversidade que temos encontrado no cinema brasileiro, nestes últimos anos. Ideias não faltam para serem colocadas nas telas e arrisco dizer, que essa formato tem tido muito mais criatividade, do que muitos longas. Em “Parla Italiano”, escrito dirigido e protagonizado por Rastricinha Dorneles e codirigido por Caim Pacheco do Nascimento, duas pessoas trans, a história se mistura ao gênero e ao fantástico sem cair em exageros. Ele consegue ter um pouco de tudo, na medida certa. O filme sintetiza a forma como as pessoas lidam com a espiritualidade. E no Brasil, sabemos o quanto o misticismo é forte e muitas vezes as pessoas apelam para todos os tipos de crença para conseguir alcançar seus objetivos, ou simplesmente ter uma energia boa (para quem acredita em energia) perto delas. Rastricinha que faz a Gabi, é uma destas pessoas que acreditam em tudo. E durante um encontro que tinha de tudo para ser romântico acaba se tornado uma situação inusitada, que é só vendo para entender, inclusive entender a escolha do título. É um filme leve, divertido e com ótimas interpretações. É um viva a diversidade nas telas.
O filme faz parte da Interzona Midnight e será exibido hoje, dia 27, às 21h, no Estação Net Rio 5
Grão
O vencedor do Prêmio Canal Brasil de Curtas, em Tiradentes é um dos curtas mais interessantes que vi nesses últimos anos. Com poucos diálogos e um protagonista, ele consegue transmitir o que sente uma pessoa que vive na solidão, em meio ao seu trabalho informal de recolher a soja extraviada durante a noite em um porto, no Sul do Brasil, usando isto também algumas vezes, como venda ilegal do produto e que vive, sem grandes expectativas. A sua grande paixão é seu carro vermelho de 20 anos, equipado com um som potente, que é uma forma de chamar a atenção com seu alto volume, durante seus momentos de folga. Ou seja, o carro é seu apego e sua diversão. Durante a apresentação do personagem vamos vendo o quanto essa trabalhadores são invisibilizados e obviamente eles têm desejos, mas poucas são as oportunidades, até mesmo para conseguir se relacionar com alguém. E o personagem fortão (interpretado por Leandro Gomes) que parece munido de uma segurança hetero, acaba se tornando fragilizado diante de seu pequeno mundo. O que mais me chama a atenção é que os cineastas Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa deixam em aberto muitos questionamentos, sobre a exploração do agronegócio, que de pop é para poucos e também para pensarmos o que quisermos, sobre o seu personagem. Tudo ali é uma reflexão que se mistura a belas imagens, de um futuro incerto.
O filme faz parte da Mostra Competitiva Nacional 3 e será exibido amanhã 28 d março, às 19h, no Estação Net Rio 5
Para mais informações sobre locais e horários dos curtas basta acessar a página do festival: https://curtacinema2026.com.br/
Quer saber tudo
o que está acontecendo?
Receba todas as notícias do Portal de Notícias no seu WhatsApp.
Entre em nosso grupo e fique bem informado.







Deixe o Seu Comentário